Friday, April 12, 2013

Dirigindo teatro

Quando eu estava na oitava série, resolveram fazer uma feira de ciências na escola. Sabe o que é uma feira de ciências? Não? Explico. Feira de ciências é uma espécie de trabalho em grupo passado nas escolas, geralmente para todos os alunos, cuja finalidade utópica é forçar os alunos a estudar ciências. Na prática da escola pública em que estudei, feira de ciências era uma forma de os professores ficarem uma semana de folga dos alunos, que estariam muito ocupados em ficar à toa por 4 dias para apresentar alguma coisa bizarra genial na sexta-feira.

Pois bem, na 8ª série resolveram dar um tema especial à feira: ENERGIA. Isto, porque estávamos no auge da encrenca FHCeana dos apagões. E pra tudo ficar mais parecido com o zorra total, a coordenação decidiu misturar as turmas em vários grupos diferentes: dança, música, teatro... Tudo muito voltado para a pesquisa científica, como os senhores podem perceber.

Eu, que era mais aparecida que mico de circo, e que arriscava qualquer maluquice pra deixar de ser a santinha cagona da escola, entrei no grupo de teatro. Era a porta que me levaria ao Oscar!!!


Problema é que no primeiro dia de ensaios faltava uma coisinha: a peça. Ninguém tinha escrito uma peça. Ninguém tinha pensado num roteiro. Tínhamos 30 pessoas no grupo e nenhuma peça pra ensaiar.

Sabendo que eu gostava de escrever, a professora de português me incumbiu de tentar escrever alguma coisa. Estourei meus miolos para pensar em alguma coisa e...
Insinuante demais pra oitava série, né?
Foi necessário descartar a ideia de todos se apresentarem com tomadas na boca, apesar de eu achar que teria sido muito mais fácil ensaiar todos para ficarem parados e mudos.

Acabei conseguindo escrever uma peça a noite, à luz de velas, pois faltou energia. Eram 8 páginas sobre uma família maluca onde o pai tinha paranoia por economizar energia, uma das filhas só pensava em energia cósmica e coisas transcendentais (essa era eu), o filho era um projeto de cientista que causava curtos circuitos na casa com seus experimentos, a outra filha tinha anorexia e por não comer não tinha energia pra viver...

Modéstia à parte, a peça ficou engraçadíssima! Levei pra escola no outro dia e todo mundo adorou. Todo mundo menos Karolayne, que era mais aparecida que eu e não ficou feliz de ver que a minha peça tinha sido escolhida tão facilmente. Ela levou a peça pra casa e fez pequenas modificações: pequenas modificações que implicaram em uma peça de 15 folhas e no acréscimo de mais 5 filhos a esta família.

Claro que como eu era santinha cagona, eu não reclamei de ela ter cagado na minha peça. E lá fomos nós ensaiar a gigantesca peça, que já não era engraçada e nem fazia sentido nenhum. 

Foram vários dias (porque pensando bem, me lembrei que essa feira de ciências teve um tempo de preparação de mais de uma semana) ensaiando aquela droga de peça. Ninguém decorava as drogas das falas, ninguém sabia sua hora de falar, a maioria nem sabia que nome teria na peça! E eu lá, feito uma idiota, me esguelando pra tentar fazer alguém saber o que dizer na hora da peça. 

Quer saber? Ser santinha cagona é uma m$%¨&...

Foi chegando o dia da apresentação e cada vez os ensaios se pareciam menos com a peça original. JK, que fazia o papel de pai, realmente tinha ficado paranoico e a cada dia inventava alguma maluquice paterna para fazer na hora da peça, como colocar os filhos de castigo, brigar com a mãe, fugir com alguma amante... A mãe tinha resolvido mudar de nome, acabando com uma das últimas piadas que restavam da peça original, que consistia no fato de ela e uma das filhas terem o mesmo apelido "Juju" e se confundirem a todo momento.

Mas todo sacrifício um dia acaba. Nem que seja num desastre, mas acaba! De modo que finalmente chegou o dia de apresentar a bendita peça.


Senhoras e senhores, de repente meteram 30 "atores" no palco. Todos de uma vez, sem lembrar suas falas, e JK - o pai, se é que ainda se lembram - arranjou um cinto. Nunca na história dos ensaios tinha havido cinto algum! Ele também decidiu trocar todas as suas falas por "Cala a boca, menino, tá de castigo!" E colocou todos os seus 15 filhos de castigo, de joelhos no palco, e bateu de verdade em cada um de nós. A mensagem final da peça foi: "invente de fazer peças sobre energia e vai entrar no cacete".

Não sei como foi que aquela droga de peça acabou, porque perdi totalmente o controle da situação, mas jurei pra mim mesma que nunca mais dirijo/escrevo/participo de qualquer peça de teatro. 

A menos, é claro, que seja uma peça complexa e séria como "A volta do cão arrependido".





Observação pós post: Minha mãe, que era professora na escola e teve o desprazer de assistir essa grandiosidade, está lendo enquanto escrevo e se encontra vermelha de tanto rir, não do que estou escrevendo, mas da lembrança de nossas macacadas no palco...

15 comments:

  1. Acho que eu participei de uma quando mais nova, devia ter feito maquete de alguma coisa em relação à vulcão que não me lembro auhauahuaa

    Kisu!

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    1. Acho que todas as "feiras de ciências" que participei renderiam posts. Tudo era muito bizarro onde eu estudei...

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  2. Nossa, que coisa!!! Deve ter sido horrível ver eles destruindo sua peça. Não tinha um professor supervisor pra controlar a situação, não? O bom dos desastres... é que depois de um tempo a gente acaba por rir deles e se divertir!

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    1. Sim, foi horrível. Não tinha professor supervisor porque eles aproveitavam essas feiras pra tirar férias. Tipo "férias de ciências". Eles nem chegavam perto das nossas macacadas...

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  3. hahaha.. pelo menos vc aprendeu a brigar pelo que vc acredita????

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    1. Até aprendi, mas foi bem depois desse caso...

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  4. Queria ter assistido a tudo isso,deve ter sido muito engraçado...

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    1. Foi terrível na hora... mas tenho que reconhecer que foi engraçado!

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  5. Por que os professores sempre deixam os alunos pagar mico? Nunca fiz nenhuma na escola, mas vi algumas que talvez fizessem a felicidade de um autor surreal surtado...
    abs
    jussara

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    1. haha... tbm já presenciei uns micos que deixariam o meu quase no chinelo...

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  6. Essa estagiária é mesmo uma artista viu! Já escreveu livro, já escreveu peça de teatro... tenho o maior orgulho de tê-la aqui no Gaiola...rsrsrsrsrsrs
    Eu so participei de um teatrinho tosco quando tinha cinco anos.. eu era uma borboleta e só lembro que minha mãe passou a noite costurando missangas num colant rosa (nem sei se é esse o nome daquele troço) que eu fiz o favor de arrebentar tudo a hora que fui vestir... affff

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    1. :) Era uma borboleta com miçangas voadoras!

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  7. Tô rindo até agora!!! E se fosse comentar cada coisa que me fez rir, não pararia hoje!
    Tenho ótimas lembranças de feira de ciências, tanto minhas quanto dos filhotes. Mas sem micos!

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  8. Oi estagiária.
    Durante dois anos eu fiquei em uma turma de teatro na escola. Eu detestava!!! Mas como eu sempre ficava doente no mês de março com a mudança no tempo, eu perdia as primeiras aulas, quando os alunos disputavam as vagas nas atividades oferecidas pela escola, como ginástica olímpica e sala de leitura, que eu adorava!
    Eu estava sempre entre os alunos que faziam tudo de má vontade e odiava subir no palco. Acho que era do tipo de aluno que vc critica no seu post.
    Mas gostei da sua idéia da sua peça, deve ter sido muito interessante! porque você aborda de forma muito original os diferentes conceitos para energia. Você não diz as mudanças feitas pela menina, mas foi puro recalque, só pra mostrar serviço!
    Beijos

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  9. ushuahushauhhs rir muito aqui agora, na verdade acho que voce daria sim uma boa diretora, ou atriz, foi de um humor incrivel ler seu texto, parabens, com tudo algo sempre aprendemos!!

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